segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cósmico

Aquele vento que soprava na porta do sobrado amarelo, jogava as folhas que anunciavam uma mudança iminente. Em meio àquelas palavras de humor, sorrisos encantados jorravam no ar. Como se o universo quisesse que permanecessem enfeitiçados, lançou uma brisa para tranquilizar o abrupto amanhecer. Ainda vadios, vagavam sérios em seus pensamentos esclarecidos pela luz que o Sol trazia.

Mas em um verdadeiro conto de fadas, mesmo que efêmero, a magia não pode ser destruída, acabar pura e crua, interrompida pelo tempo causador da sua própria construção. Novamente o universo, vendo a despedida que se delineava, interveio com suas águas geladas, tentando impedir que o Sol se manifestasse; acabou forçando todas as criaturas a se esconderem.

Exaustos e embriagados, seus corpos repousam no colchão macio, enrolados nos panos que encobrem as entranhas e esquentam os pés descalços. O silêncio adentra o espaço, separando os olhares que se evitavam, receosos, naqueles segundos infindáveis. Na fragilidade do instante, os desconhecidos poderiam arruinar o que a noite construiu. Nada esperavam, não se via movimento algum.

Do toque inesperado, dedos tímidos passeiam pelas peles contraídas. Numa busca iniciada de uma nova magia percebida, materializou-se uma excitação ocultamente platônica. Naturalmente, os corpos invadidos pelo feitiço agora reconhecido se entregavam, ao mesmo tempo tranquilos e afoitos.

Uma poeira cósmica forra os lençóis desgrenhados, enquanto o dia não é mais impedido de nascer. Carinhos trocados não semeiam a terra e, enfim, o mundo volta a seu eixo. O encanto se transforma em lembrança e os encantados, amigos como nunca sonharam.

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