terça-feira, 23 de março de 2010

Sonho de Criança

Lembro-me bem da vontade que tinha de aprender a ler. Adorava as curvas e retas que compunham as letras e achava sobrenatural o fato de as unirmos e formarmos palavras que expressavam sentimentos, objetos, nomes... 
Desde pequena sou apaixonada por livros: suas histórias fantásticas me levavam a um mundo que só poderia conhecer através da imaginação. Nunca entendi o porquê das outras crianças não partilharem minha paixão, mas elas podiam jogar videogames e eu, não.
Desde o primeiro momento em que comecei a ler as aventuras de Monteiro Lobato e O Sítio do Pica-Pau Amarelo penso como seria ser um escritor: moraria numa casa azul em meio a um bosque apenas acompanhada de meus animais, papel e caneta.
É triste quando se vê que seus sonhos de criança se despedaçam a cada dia que vivemos e que não posso mais voltar completamente àquele mundo que era só meu; e dos meus amigos-personagens.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Encontros



          Andava sozinha de volta para casa depois da escola. Meu uniforme azul que cobria todo o meu corpo tinha o emblema do colégio católico em que estudava bordado em cinza. Nunca entendi a preferência sombria dos uniformes de escolas católicas pelas cores neutras e escuras. Parei na esquina de casa e meu coração disparou quando vi ele passar em sua moto negra a toda velocidade por mim. Lembro, ainda, do barulho ensurdecedor que me acelerava o coração todas as vezes depois daquele momento. Cheguei em meu prédio e, ao entrar no elevador, lá estava ele, em pé, sorridente, vestido com sua jaqueta de couro preta e calça jeans; o capacete estava em uma das mãos e, se eu soubesse o quanto aquele bom dia mudaria minha vida, talvez tivesse sido mais educada. Subimos juntos, ele desceu no segundo andar e eu, no terceiro. Havia me mudado há poucos dias para esse novo apartamento com minha família e o colégio novo apenas tornava pior minha adaptação. Todos me pareciam tão diferentes do que deveriam ser. Tinha 13 anos, na época, então, o luto não demorou muito, embora no momento parecesse interminável. Alguns dias depois já havia feito ao menos uma amiga.
          Convidei minha nova amiga para almoçar em minha casa num desses dias. Depois do almoço, resolvemos descer e ir até a piscina do prédio para tomar um sol e dar uma refrescada na água.Coloquei meu biquini vermelho bordado, um vestido branco por cima, e descemos. Não havia ninguém na piscina, mas a quadra estava cheia e, com o passar das horas e a noite caindo foi ficando cada vez mais. Resolvemos, então, assistir ao jogo de futebol que vários garotos estavam jogando. Foi quando o vi novamente. Ele me olhou, sorriu aquele sorriso largo, e voltou a jogar. Não conseguia disfarçar o frio na minha barriga, afinal, ele não parecia ter 15 anos. Voltei para casa como se nada tivesse acontecido e dormi um sono profundo povoado por passeios beira-mar.
          Por dias nos esbarramos pelos corredores e, entre sorrisos, nos encontramos, algum tempo depois, no salão de jogos do prédio, onde ele me convidou a jogar uma partida de sinuca com ele. Estávamos sozinhos e conversamos por horas: ele tinha 22 anos, fazia faculdade e pilotava uma moto. Era tudo que eu precisava saber, na época, para me apaixonar. E, pela primeira vez, até então, na minha nova vida amorosa, me senti extremamente insegura: como ele poderia olhar para uma criança como eu? Quando perguntou minha idade, resolvi mentir e disse que iria fazer 17 anos em pouco tempo.
          O primeiro beijo só veio semanas depois, quando já nos falávamos corriqueiramente, além de nos encontrarmos quase todos os dias. Bastava ouvir um barulho de moto pela janela que já o esperava aparecer na janela. Seu quarto era logo embaixo do meu e, assim que chegava, se pendurava na janela para me cumprimentar. Muitas vezes estava lendo um livro, outras, assistindo a algum filme. Então, um belo dia ao final do verão, cheguei da escola e o encontrei me esperando sozinho na piscina. Ele estava sentado na borda, ventindo apenas uma bermuda clara e, quando me viu, abriu aquele sorriso que me encantara semanas antes no elevador. Sentei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo no rosto. Ele segurou meu rosto com uma das mãos e, delicadamente com as pontas dos dedos, colocou meu cabelo atrás da minha orelha. Deu-me um beijo que nunca esquecerei: seus lábios roçaram nos meus lentamente e me entreguei completamente. O beijo durou uma eternidade e, de repente, ele se afastou e me disse ao pé do ouvido: "Não via a hora disso acontecer". Continuou me beijando quando caímos na piscina. Meu uniforme azul estava todo molhado e, entre gargalhadas, ele me disse que tinha que ir embora. Saímos da piscina e subimos juntos pela escada, parando degrau a degrau para nos beijarmos.
           No dia seguinte, logo que cheguei da escola, corri até a piscina. Lembro do meu coração batendo rápido enquanto corria e, de repente, senti-o parar. Segurei a respiração por um breve período.  Ele não estava lá. Por meses assim o foi: de tempos em tempos ele aparecia, nos falávamos, nos beijávamos loucamente, nos escondíamos pelas escadas, mas sempre que eu chegava, corria até piscina e ele não estava. Em um desses dias, uma amiga me convidou para conhecer seu novo namorado em um jogo de futebol em um prédio próximo ao meu. Cansada de esperar, fui.
          Ao chegar, mirei os dois times: em um, os jogadores jogavam com camisa, em outro, sem. A bola era branca, mas, de tão suja, aparentava ser marrom. Então vi um dos jogadores sem camisa: um jovem lindíssimo, que minha amiga disse que gostaria de me conhecer. Ele era dois anos mais velho que eu. Depois do jogo, ela me apresentou a todos os amigos de seu namorado. E ele, tão lindo sem camisa, colocou uma camiseta, me cumprimentou, pediu desculpas e disse que ia tomar um banho.Estávamos tomando um picolé de limão na padaria que ficava na esquina e ele apareceu: de banho tomado, parecendo um deus grego. Tinha cabelos loiros, olhos verdes e uma boca rosada que continha um sorriso doce. Começamos a conversar e ele se ofereceu para me levar até em casa, já que estava ficando escuro. Fomos caminhando até chegarmos próximos ao prédio em que morava, onde ele me puxou e me beijou. Era um beijo bom, mas não era o beijo do meu primeiro amor. Mas, ao menos, ele se mostrava interessado por mim.
          Começamos a sair freqüentemente, ele me buscava na escola, me levava presentes e se dizia extremamente apaixonado. Evitava ao máximo que ele fosse até meu prédio, já que meu amor poderia estar lá. Meus esforços foram em vão: num dia claro de primavera, ele apareceu com um presente para mim. Meu amor estava com amigos na porta do prédio e, assim, não pude disfarçar. Nos beijamos e fomos para a piscina, o lugar que nos daria mais privacidade. Estava tensa e ele acabou percebendo isso. Pediu desculpas, disse que não poderia estar com alguém que ele iria pedir em namoro se essa pessoa não se sentia da mesma forma. Me senti horrível. Mas quando ele saiu, meu amor veio conversar comigo. Estava com ciúmes e acabmos brigando por infantilidades.
          Meses depois, nos encontramos e resolvemos conversar. Racionalmente, começamos a ficar cada vez mais próximos. Brigas corriqueiras atrapalhavam um pouco, até que veio a notícia de que deveria me mudar novamente. Achando que eu tinha alguma responsabilidade sobre isso, ele resolveu nunca mais falar comigo. Durante anos fui apaixonada por ele, mas com o tempo, novos amores surgiram na minha vida, novas emoções, novas confusões. Acabei o esquecendo, mas não completamente.
          Até que veio aquele e-mail. Um e-mail tímido que fez meu coração disparar: "Oi, gostaria de saber por onde andas. Beijos. T.". Sabia de quem era. E sabia o que aquilo significava. Mas estava noiva. Respondi, recatadamente, dizendo que estava bem e estava noiva. Ele me respondeu que era casado e estava esperando o nascimento do primogênito. 10 anos depois! Arrepiada não sabia o que fazer.





Nos encontramos dias atrás... Um encontro rápido, frio e distante, que recolhia todos os pêlos de nossos corpos para disfarçar a ansiedade...

Não nos beijamos, nos comportamos... Estávamos expostos pela luz do Sol, sem fuga da nossa realidade cotidiana ou a lua para nos proteger.

Estávamos sós. Entretanto, haviam tantos outros conosco.

Eles não haviam ido dormir ainda. Não ainda.

Talvez num dia menos fugaz possamos estar a sós. Finalmente.


Máscaras de Athena



  1. EXT./NOITE/GRAMADO

Uma jovem, de aproximadamente 20 anos, sentada na grama com um chapéu preto no cair da noite acende um cigarro. Ela observa os galhos da árvore à sua frente, que se movem com o vento. Ela tira o chapéu, o coloca de lado e sente o vento em seu rosto. Dá uma longa tragada em seu cigarro. Um gato passa à sua frente e se aproxima dela, curioso. Ela está chorando, mas sorri quando ele se aproxima. Ele se assusta com algo e corre, pisando em seu chapéu. Ela o observa correr atenta a seus movimentos. Parece pensativa e concentrada. Ela começa a escutar vozes cantando baixo, se levanta e começa a caminhar. Apaga o cigarro no chão e olha para o lado, onde vê uma grande fogueira e jovens dançando. Eles vestem túnicas em tons claros e de tecidos leves e jogam sementes e frutas na fogueira. Ela se aproxima e os jovens a convidam para dançar. Alguns vestem máscaras de coruja. Ela se senta ao redor do grupo que dança, os observando. Uma jovem muito bonita se aproxima dela, senta a seu lado e pede um cigarro. As duas acendem seus cigarros com fósforos.


PROTAGONISTA

- O que vocês estão fazendo?


JOVEM

- Estamos adorando Athena e Dionísio. É um movimento de libertação dos corpos.


Um outro jovem, então, puxa essa linda jovem para dançar, que puxa nossa protagonista. Eles dançam ao redor da fogueira, riem e o dia começa a amanhecer. Ela se despede de todos e vai embora.



  1. EXT./DIA/CORREDORES ABERTOS



Os jovens que participaram do culto estão conversando cada um com seu grupo de amigos quando a protagonista passa pelo corredor. Ela sorri para eles enquanto passa. Eles sorriem de volta e continuam a conversar com seus grupos.

O Lugar Perfeito para Ler


          Quando era pequena, me imaginava lendo livros embaixo de árvores grandes, grossas e escuras, assustadoras, até certo ponto, mas protetoras com suas copas infinitas. A grama seria verde e macia e o tronco encaixaria perfeitamente minhas costas culminando no local perfeito para imaginar. Mas nunca foi bem assim. Durante anos procurei o local perfeito para ler: aquela árvore que foi designada a mim. Algumas vezes acreditei que tinha achado algo, mas todas as vezes voltei a minha decepção inicial. Algumas tinham formigas demais, outras, grama de menos, e ainda algumas que se descascavam em minhas costas. Comecei a pensar, então, qual irrealista me parecia essa ilusão: apenas em filmes, em desenhos animados e na minha mente as pessoas parecem ter o local perfeito para ler. 
          Mas ainda precisava de um lugar que pudesse ler. Tentei dentro do ônibus, mas todas as vezes que o motorista freiava, acabava tendo que voltar ao início do parágrafo e, ao final de 2 horas, não havia lido nem 10 parágrafos. Estaria tudo bem, mas não estava lendo Saramago naquele dia. Então tentei o banco na praça em frente à minha casa.Era fim de tarde e a iluminação me parecia perfeita. Fiquei sentada lá lendo por uns 20 minutos até que escureceu e voltei para casa para jantar. Acordei cedo no outro dia, peguei meu livro e saí correndo pela porta. Cheguei ao banco e algo não me parecia mais certo. A iluminação tinha mudado. Mesmo assim, insisti e sentei no banco. Abri o livro na página marcada com um clipe vermelho. Por alguns dias, foi um local perfeito. Mas às vezes as babás sentavam no meu banco para conversar enquanto as crianças brincavam, às vezes jogavam uma bola em mim e, quando vi, não era mais tão tranquilo assim.
          Com o tempo, fui me acostumando com o hábito de ler em minha cama antes de dormir. Meus pais nos mandavam cedo pra cama e, quando não tinha sono, ficava lendo até adormecer. O que, muitas vezes, surtia o efeito contrário: eu me animava e não queria dormir até terminar o livro, ficando horas acordada. Comecei, então, a ler e estudar sempre na minha cama: era confortável, podia mudar de posição à qualquer hora, alguns travesseiros serviam de apoio e a luminosidade podia ser controlada por mim. Ainda hoje me pego de bruços na cama lendo com os pés para cima, como eu fazia aos 5, aos 10, aos 15 anos...