segunda-feira, 22 de março de 2010

O Lugar Perfeito para Ler


          Quando era pequena, me imaginava lendo livros embaixo de árvores grandes, grossas e escuras, assustadoras, até certo ponto, mas protetoras com suas copas infinitas. A grama seria verde e macia e o tronco encaixaria perfeitamente minhas costas culminando no local perfeito para imaginar. Mas nunca foi bem assim. Durante anos procurei o local perfeito para ler: aquela árvore que foi designada a mim. Algumas vezes acreditei que tinha achado algo, mas todas as vezes voltei a minha decepção inicial. Algumas tinham formigas demais, outras, grama de menos, e ainda algumas que se descascavam em minhas costas. Comecei a pensar, então, qual irrealista me parecia essa ilusão: apenas em filmes, em desenhos animados e na minha mente as pessoas parecem ter o local perfeito para ler. 
          Mas ainda precisava de um lugar que pudesse ler. Tentei dentro do ônibus, mas todas as vezes que o motorista freiava, acabava tendo que voltar ao início do parágrafo e, ao final de 2 horas, não havia lido nem 10 parágrafos. Estaria tudo bem, mas não estava lendo Saramago naquele dia. Então tentei o banco na praça em frente à minha casa.Era fim de tarde e a iluminação me parecia perfeita. Fiquei sentada lá lendo por uns 20 minutos até que escureceu e voltei para casa para jantar. Acordei cedo no outro dia, peguei meu livro e saí correndo pela porta. Cheguei ao banco e algo não me parecia mais certo. A iluminação tinha mudado. Mesmo assim, insisti e sentei no banco. Abri o livro na página marcada com um clipe vermelho. Por alguns dias, foi um local perfeito. Mas às vezes as babás sentavam no meu banco para conversar enquanto as crianças brincavam, às vezes jogavam uma bola em mim e, quando vi, não era mais tão tranquilo assim.
          Com o tempo, fui me acostumando com o hábito de ler em minha cama antes de dormir. Meus pais nos mandavam cedo pra cama e, quando não tinha sono, ficava lendo até adormecer. O que, muitas vezes, surtia o efeito contrário: eu me animava e não queria dormir até terminar o livro, ficando horas acordada. Comecei, então, a ler e estudar sempre na minha cama: era confortável, podia mudar de posição à qualquer hora, alguns travesseiros serviam de apoio e a luminosidade podia ser controlada por mim. Ainda hoje me pego de bruços na cama lendo com os pés para cima, como eu fazia aos 5, aos 10, aos 15 anos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Delire...