domingo, 26 de setembro de 2010

Responsabilidade sobre si mesmo

Por que o homem não pode atribuir a si mesmo sua própria responsabilidade enquanto ser existente?

Escolha?

Sim. Sempre.

A tentação mais me parece uma desculpa essencialista daqueles que não reconhecem suas próprias responsabiidades enquanto ser-aí.

E a audiência?

Palco, palco, palco...

Público que parece ter de estar ali para dar sentido à uma existência que, muitas vezes, perde as sutilezas jogadas no ar...

Escolhas e desescolhas (título não-original)

Todos os dias fazemos escolhas...

Escolhemos o tempo todo, mesmo quando pensamos que não estamos escolhendo nada. Oh! Engajamento, querido Sartre.

Como medir o impacto que uma escolha pode fazer na vida social de um ou do outro?

Talvez através das consequências ditas "naturais" que possam se decorrer de uma escolha, baseadas em projeções inspiradas, por assim dizer, em nossas experiências prévias.

Mas no fundo, no fundo... Uma escolha não implica necessariamente o futuro projetado. Esse futuro ainda é virtual. Assim, deixar a angústia de lado e arriscar me parece o melhor nesse momento.

Agora só vou fechar os olhos e não pensar muito mais.

Escolhi.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Capítulo 2

Odeio quando o sol da tarde entra pela janela trazendo um ar seco, abafado e cozido. Meu cigarro já são tem o mesmo gosto e tudo parece evaporar em um estante. Toca o telefone, Como uma fugitiva, quase me escondo ao ouvir aquele trim alto que tenta despedaçar meus tímpanos. Não sei se quero atender. Mais dois toques se passaram. Pego o teleone relutante e com minha voz falha digo um simples "alô". Me convidam para estudar, estudar o que já sei, estudar o que não me interessa. Encontrar essas pessoas não me apetece mais que um pedaço de massa crua de pão.
O outro me vê como inimigo, um inimigo cujo maior crime foi não querer se dividir, se expôr e deixar com que tocassem no seu eu mais secreto. Não ataquei ninguém, a não ser por reação ao me sentir acuado, como um animal. Tampouco tentei me aproximar: o outro não me instigou tanto assim. Quando a aproximação soa muito difícil, destoante, talvez é porque ela não deva acontecer. Me esforçar infinitamente para tentar achar uma quina de padrão à qual possa me apoiar para que se gere uma faísca de afeto irreal me soa chato e incompreensível. Não compreendo o outro e esse não pode me compreender de forma alguma. Mais que não poder: eu não o quero me compreendendo.
Se o outro me compreende ele deve ser mais confuso do que eu e seus pensamentos devem sempre se alinhar de forma completamente aleatória, embora organizada à sua própria maneira. Não desejo isso para nenhum outro. Por que eu tenho que ser julgada por saber separar as coisas enquanto o resto do mundo não?
Hoje, entretanto, quero ver todos aqueles "outros" que não se sentem ameaçados apenas pela minha existência. Hoje quero ver aqueles "outros" que entendem o que concerne a mim e só a mim e o que concerne às outras áreas categorizadas e pré-definidas da minha vida como um ser social.
Não mexam em minha potência. Deixe-me ser puro devir, só por hoje. Deixe-me exercer, só por hoje, toda minha potência de não-ser. Não me julgue. Não, hoje acho que vou encontrar outros corpos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Capítulo 1



Levanto-me de manhã acordando sonolenta com um feixe de sol batendo em meu rosto. Estou em uma cama, cujos lençóis cor de vinho tinto se emaranharam aos travesseiros sem fronha. Estendo minha mão à esquerda e procuro, em cima do gaveteiro, em meio à uma bagunça de livros, papéis e garrafas, desesperadamente, meu cigarro. Depois de uma longa tragada, tenho coragem de me levantar.
Pego minha camisa de flanela xadrez azul em cima da cadeira e saio em direção à cozinha. Paro na sala e observo atentamente àqueles corpos semi-nus, dormindo tranquilamente e aparentando um ar inocentemente selvagem. Quase 10 corpos em um estado de semi-consciência alinham seus sonhos.
Entro na cozinha abafada e quente, tenho muita sede. Me dirijo à geladeira barulhenta, complexada por sua cor irreverente, e pego uma garrafa de água tão gelada que, no menor contato com o ar, forma gotículas em seu exterior. Bebo do gargalo, a goles largos, matando uma sede infinita e agonizante que, aos poucos, cessa. Ligo o rádio à pilha próximo à pia e procuro uma estação. Acabo me surpreendendo e, enchendo meu corpo de uma confortável náusea, escuto, encantada, tocar uma de minhas músicas preferidas. Me pego, enfim, dançando com a garrafa de água já quase morna em minhas mãos.
Sussurros vêm da sala, trazidos pelo cheiro de folhas pelo vento. Respiro fundo e, mais do que saber, sinto que é outono. Encontro uma roda de seres humanos sonolentos e confusos, todos querendo ser ouvidos e compreendidos. Esperançosos por algo que não ocorre, algo que não pode ocorrer. Como podemos compreender o outro? Como podemos nos compreender?
Algumas questões às vezes são difíceis demais, talvez possamos nos contentar com respostas simplistas ou apenas deixarmos para lá, com um sentimento de nostalgia do que nunca fomos capazes de entender.
Todos os dias acordo diferente, minha esquizofrenia latente me molda a cada acordar. Hoje não quero compreender – mas não necessariamente tenho que aceitar respostas simplórias acerca de assuntos complexos que não temos acesso. Hoje não quero nada. Hoje não quero amor, nem paz, nem experiências. Hoje apenas quero me focar num papel antropológico de me conhecer através do outro. Clichês são clichês por algum motivo e, dentro de mim e para mim, posso usá-los como bem entender. Assim como posso ser hipócrita comigo mesma e, apesar de acreditar, agir de forma completamente diferente.
Deixo todos na sala sem dizer uma palavra e me dirijo ao banheiro mal iluminado e branco como um hospital – por baixo daquela meia-luz – mas não sem antes pegar um caderno rasgado e um lápis em cima da mesa. Sento na banheira de porcelana e começo a escrever indeliberadamente. Droga! Esqueci meus cigarros. Volto ao meu quarto para buscar e ele ainda está dormindo, nu, entre os meus nem tão famosos lençóis cor de vinho.
Me distraio facilmente olhando aqueles feixes de sol batendo em suas costas, deixando à vista todas aquelas partículas que prefiro não pensar em pó e ácaros. Um gato preto entra pela janela, desastrado, e se deita ao meu lado. Ainda bem, já estava ficando um pouco preocupada com seu sumiço.
Escuto a porta da sala batendo e vou averiguar o que foi. Encontro um bilhete num papel – infelizmente, um papel comum, pautado – onde estava escrito:

Querida B.,
Te encontramos no clarão à noite.
Beijos.

Nada mais, nada menos. Até sei do que falam, mas abstraio esse pensamento. Não, hoje não quero entender. Subitamente, sinto uma certa ofensa pelo bilhete. Uma ofensa que não tomaria assim caso fosse outro dia. Senti como se tivessem apontado o dedo para o meu nariz e dissessem: Você vai nos encontrar à noite.
Não, acho que não irei. Não à princípio. Agora só tenho que me arrumar e ir trabalhar. Pego uma calça jeans, coloco uma camiseta preta por debaixo da camisa de flanela xadrez azul e calço minhas confortáveis botas verdes que lembram as botas dos militares.
Saio um pouco apressada, entro em meu carro e dirijo, ouvindo apenas os sons dos meus próprios pensamentos que insistem em me surpreender constantemente naquela tarde. Hoje sinto vergonha do meu trabalho, vergonha de estar com essas pessoas que continuam estando-aí. Algumas me cumprimentam, outras eu quero cumprimentar.
Hoje não é um dia comum. Dentro da rotina cíclica, intelectuais mascarados se escondem em meio àqueles poços de discursos infindáveis. Situações surpreendentes mas que são, paradoxalmente, comuns demais, me entediam. Tédio agonizante que me acompanha sem permissão, tédio que me faz refletir sozinha, balbuciar muitas palavras sem sentido, apenas para tentar achar uma relação menos superficial com o outro hostil.
Alguns conseguem quebrar o tédio, mas poucos – ou nenhum – conseguem quebrar o limite da liberdade. O limite da liberdade dado pelo meu pensamento. Medos e tabus me fazem querer esconder um lado obscuro. Deve ser por isso que não escrevo um livro: dividir o mais íntimo que concerne a mim é expor meu eu mais rachado, em pedaços. Esse é o nível de intimidade que me assusta.
Os outros insistem em falar comigo, em me forçar a dividir eu mesma, me tirando do meu egoísmo. Como reação, preencho as lacunas do tempo-espaço com histórias e brincadeiras, no fundo, desejando ficar sozinha. Mas um magnetismo incurável me atrai a esse tipo de relação e, assim como os opostos, me apego à elas de uma forma superficial e doente.
Não tenho mais palavras para qualquer um. O paradoxo da tentativa de me relacionar com as pessoas me fazendo querer me afastar cada vez mais delas me intriga, além de me deixar ser tomada por uma preguiça de ter que me esforçar para ter um bom relacionamento com aqueles que, no fundo, não me importam.
Dou risada daquilo que ninguém ri, sutis ironias que, se percebem, disfarçam muito bem. Rodeada pela mediocridade premiada, apenas desejo ir embora logo. Ir embora de tudo e de quase todos. Não posso esquecer daqueles que, mesmo não compreendendo muito bem porque, amo e quero estar junto.
São esses que me instigam a sentir o desejo de ser adorada, de agradar e, principalmente, de não decepcionar. Como se fosse um ser perfeito, busco alternativas, justificativas e respostas para fundamentar cada erro meu, caindo sempre no mesmo pedido de desculpas como último recurso para que não me deixem sozinha.
As pequenas frustrações do dia-a-dia não me incomodam mais. Apenas quero sair dali, ter outro emprego, mudar de cidade, mesmo sabendo que isso não mudará nada o que sinto. Me mover pela carência do que não tenho não me soa uma boa justificativa para dar vazão ao meus impulsos e à uma espontaneidade controlada, contida, planejada.
Muito já agüentei até aqui: professores, colegas, donos de restaurantes, policiais, políticos. Todos aqueles que tentaram me mudar, tentaram me moldar, não conseguiram. Dentre todas essas conexões forçadas e criadas ao longo da História desejam me enquadrar em padrões pré-definidos. Algumas eu aceito, pelo afeto. Algumas, tolero, mesmo sem entender o porquê.
Ainda me resta a minha relação com aqueles que são ligados à mim pelo afeto gerado pela impressões que tenho de suas próprias representações, além da relação que tenho com aqueles aos quais não conheço seus corpos: música, livros... intimidades expostas que procuro para tentar conseguir me identificar.
Olho no relógio redondo, com seus ponteiros que giram, inacreditavelmente, cada vez mais devagar, ao mesmo tempo que vejo o tempo correr ligeiro em frente aos meus olhos. Percebo que, finalmente, é hora de dar o fora dali, pelo menos por uma hora. Posso comer, posso ser quase eu mesma em meio a essa tarde ensolarada e quente que incomoda meus olhos castanhos. Saio desejando uma privacidade que sei que não terei. Quero conversar com uma, duas ou três pessoas que deixaram suas marcas profundas em mim, mas me vejo rodeada de rostos que, como máscaras, cobrem os atores.
Esse tempo passa rápido, incontáveis olhadas no relógio comprovam que os segundos passam mais rápido durante essa hora. Eles passam incrivelmente velozes, mas sinto como se tivesse o tempo em minhas mãos e pudesse controlá-lo. Mas não posso. É hora de vestir mais uma de minhas algemas e aceitar que preciso me trair por algumas horas a mais. Todos os dias me traio um pouquinho, mas sinto como se essa traição não fosse real. A disfarço bem para mim mesma.
Bagunço nos vinis empoeirados e me pergunto se vale a pena organizá-los de outra forma, talvez. Uma de muitas surpresas me aparece e, como mágica, melhora meu dia. Um daqueles corpos semi-nus que antes dormia em minha sala entra pela porta e vem me visitar. Uma visita efêmera, mas que transforma toda a cena ao meu redor. Ele me lembra da minha outra prisão, da prisão da mente às reproduções de discursos que alguns insistem em vangloriar e chamar de universidade.
Volto para casa nessa noite remotamente fresca, com o vento em meu rosto, bagunçando meus cabelos que, eventualmente, tapam minha visão. Penso que ameaça chover. Doce ilusão que se desfaz quando olho para aquele céu azul marinho sem estrelas, sem nuvens, sem lua. Resolvo dirigir até o clarão. Eles me conhecem muito bem. Me conhecem melhor do que eu mesma me conheço. Eles sabiam o que eu não sabia horas antes: sim, eles iriam me encontrar no clarão aquela noite.
Chego de mansinho e procuro com meu olhar periférico aquele que jazia nu em minha cama naquela manhã. Aquele dos olhos azuis e das costas largas, com suas pintinhas que formavam uma constelação que me fazia desejar, ao mesmo tempo, brincar de ligue-os-pontos e procurar um caminho por onde navegar. Enquanto cumprimento alguns com abraços saudosos, outros com acenos quase obsceno, o vejo conversando num canto, com uma lata de cerveja na mão. Abro um sorriso que, para mim, conseguiria engolir o universo. Ele sorri de volta e, como numa epifania, sei que tudo está bem agora. Independente do que acontece ou aconteceu, ele está ali, lindo e tranqüilo como um gato que se esfrega em sua perna quando te vê.
Nos abraçamos e nos beijamos longamente, como se todos os nossos problemas pudessem desaparecer naquele beijo sem fim. E eles podem. Eles desaparecem. Não quero mais pensar em nada, mas meus próprios pensamentos me traem. Eles me levam a uma direção da qual não controlo, mas desejaria controlar. Eles me prendem à todas as coisas mundanas que enfrentei e ainda enfrento.
Sentamos no chão e outros dois corpos - agora vestidos com seus casacos azulados que quase combinam - sentam ao nosso lado. Ele retira uma carteira de cigarro do bolso, enquanto acendo um cigarro que quase soa saudável ao ver ser efeito relaxante sobre mim, e tira um cigarro especial, um cigarro de ervas que me prometem relaxar a cada tragada. As risadas voltam a mim e, como mágica, todos os meus sonhos e histórias bobas resolvem se revelar.
Deveria escrever um livro, ou não. Isso não importa. Agora me divirto, esqueço de tudo que me incomoda, e lembro de tudo que ainda hei de fazer. Mas amanhã, só amanhã. Por hoje não desejo nada. Por hoje, só por hoje, não quero nada. Por hoje, quero me sentir o mais livre que posso.