quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sem Título


Sentada sozinha na calçada, abraçando os joelhos, uma mulher jovem chora. A chuva começa a cair, é fim de tarde. Os carros passam como se não houvesse nada de errado, como se o mundo seguisse um ciclo perfeito e todas as coisas estão onde deveriam estar. Não para ela. Ela chora desesperadamente. Lembra de quem foi e de quem se tornou. Lembra dos sonhos destruídos, das escolhas erradas, dos amores impossíveis e da mediocridade de seus atos. Ela se recorda dos amores da juventude tenra, das descobertas do corpo e dos sentimentos intensos, que a faziam – e ainda a fazem, em menor medida – agir drasticamente como se vivesse num palco. Como podia ter chegado a esse ponto? Já não escrevia como antes, já não amava como antes e já não sabia como antes. Suas incertezas a dominavam de tal forma que o futuro não podia existir mais. Era muito tarde para sonhar, a excitação dos anos adolescentes já não fazia mais parte do seu ser: agora ela tinha todos os dados. Infelizmente, não sabia como jogar: fez sua estratégia ainda com poucas informações sobre as regras, mas as regras agora eram outras: continham muitas exceções. Como lidar com a pluralidade de opções? Que caminho seguir? Ela precisa se levantar: precisa escolher um caminho, pois a angústia que antecede a escolha era pesada demais para carregar: era preciso escolher. Ela se levanta e atravessa a rua.

Créditos.

6 anos antes:
Uma garota linda, vestindo roupas masculinas, mas ainda parecendo sexy com seu batom vermelho, grita no meio da multidão. Tem os olhos pintados de um preto que universalmente dava ao seu olhar a sensação de infinito. Seus olhos castanhos brilhavam e seu cabelo raspado remetia aos soldados que víamos nos filmes. Uma boina vermelha escorregava de sua cabeça e conversava com seu batom. Ela pára e percebe que aquilo não podia ser subversivo o suficiente: era muito clichê. Estudantes universitários manifestando em grupo? Onde estava a arte? Onde estava as atitudes chocantes? Ela não compreendia mais. Tudo parou de fazer sentido. Ela, então, sai, calmamente por entre a multidão e acende um cigarro. Ela pensa: “Foda-se, eles ainda não entenderam nada.” Agora ela compreendia, talvez não como deveria ser compreendido, mas, à sua maneira, tudo estava errado, nada certo, e, talvez por isso, tudo estava certo, nada errado. Aquilo que nada entendemos, que nos parece estranho, não nos deixa moldes de como agir. Ela não queria moldes. Ela menosprezava os moldes. Querendo ser si mesma, caindo sempre em clichês. Não dá mais.

2 anos depois da cena anterior:
Sentada sozinha com seus livros, no chão, de pernas curazadas, rodeada de seus melhores companheiros por todos os anos de sua vida, livros e mais livros no chão, ela acaricia calmamente as páginas amarelas procurando uma passagem para reler. Acendendo um cigarro de maconha, dá uma tragada longa, profunda, que chia o ambiente silencioso. Um gato preto se aproxima e ela o acaricia sem tirar os olhos do livro que está no colo e dando mais uma tragada. Ela apaga o cigarro de maconha no cinzeiro sujo com uma das mãos, enquanto acaricia o gato com a outra. Finalmente acha o que procurava, pega um bloco de papel todo riscado e copia no papel alguma coisa. Se levante e vai até a uma mesa, onde um abajur velho e com luzes fracas ilumina uma máquina de escrever velha. Ela copia a passagem digitando cada letra vagarosamente, saborando o gosto das palavras que saltavam aos poucos: É... T... U... D... O... U... M... A... Q... U... E... S... T... Ã... O... D... E... I... N... T... E... R... E... S... S... E. Ela acende um cigarro, que está da mesa um pouco amassado, com seu Zippo prata todo riscado pelo tempo. A campainha toca. Ela se levanta e vai atender a porta. À porta, uma garota mais ou menos da sua idade e um homem barbudo, mas jovem, trazem às mãos sacolas. Ela cumprimenta primeiro a garota com um beijo na bochecha e um oi longo e agudo. Elas se abraçam e a jovem entra. Então, ela dá um beijo na boca do jovem de cabelos desgrenhados e olhos azuis como o céu. Ela sussurra em seu ouvido: “oi, amor...”. Ele entra e ela fecha a porta.

Puxando-o pelo braço, eles passam pela mesa onde está a maquia de escrever. Ela pega, então, o isqueiro e um incenso. Acede, coloca num buraquinho feito em uma lata de refrigerante amassada, deixa-o sobre a mesa e se junta aos outros dois no chão, encostados na parede.



Flashback: relacionamento aos 13 anos com um homem mais velho. (Ela passa por um grupo de 4 homens relativamente jovens, eles se olham pela primeira vez... Ela encontra uma amiga, dá uma risadinha e sai rebolando com seu uniforme. Se cruzam depois e ela diz oi com um sorriso espetacular, convidativo e sedutor, ele responde sem graça, discretamente. Ele a segue. Ela chega à uma piscina e senta-se na borda. Acende um cigarro e ele chega. Pede um cigarro, o acende e se senta ao seu lado. Conversam amenidades – como está o tempo, blá, blá, blá – ele se vira até ela e, com uma das mãos, coloca uma parte de seu cabelo para atrás, olhando-a fixamente. Então, a beija, primeiro com ternura apóia seus lábios nos seus e, então, a beija com desejo e puxa-a mais para si.

Flasfoward: antes do casamento, uma semana com seu primeiro amor.

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