sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Capítulo 3

Levanto-me tarde com lágrimas nos olhos. Nesse domingo vazio preciso me libertar, preciso viver. Fado-me a livrar-me das amarras postas pelas minhas escolhas: não mexerei mais naqueles vinis empoeirados. Não pertencendo a ninguém, posso sair dali, deixar tudo que me faz sentir impotência para trás. É o que faço, poupo os detalhes, pois eles se perdem dentro da imensidão finita dos meus minutos que, agora, voltaram a ser meus. Posso respirar e, como uma borboleta que acaba de sair do casulo, explorar aquilo que ainda não havia explorado em sua intensidade.
Me volto a um corpo específico: o meu. Confrontando minha própria visão da realidade, esquizofrênica e individual ao meu modo, me deparo com psicopatologias da vida cotidiana contemporânea. Posso, agora, pensar novamente acerca do mundo. Começo a me encantar e a me reapaixonar por tudo aquilo à qual havia perdido a paixão. Na minha jovialidade inerente consigo descobrir minha maturidade e minha ingenuidade infantilizada que são belas, à sua própria maneira. Visualizo o mundo de forma diferente, dentro de um ideal cinematográfico que chamo de realidade. Fantasio com fetiches filosóficos.
Lembro-me como se fosse ontem um dos primeiros contatos que tivemos. Um bilhete escrito a mão que continha um detalhe que fez toda a diferença, o detalhe que chamou minha atenção: a inicial. Assinar apenas com sua inicial me traz uma idéia de confiança individual, aliada a um mistério cujos segredos são descobertos aos poucos. Desde então, nunca mais pude deixar de me encantar com tais iniciais. A assinatura. Algo que me chama atenção desde o início. Talhar sua marca apenas com sua inicial demonstra uma certa confiança individual, uma certa afirmação de si mesmo para o mundo; o anonimato que se projeta, o mistério e o segredo sendo revelados aos poucos.
Como em um livro de suspense, começo a desejar unir o que é me dado, para compor, dentro dessa união, um novo único que, ao mesmo tempo, já me soa antigo e ultrapassado. Dualidades de um mundo não necessariamente dual, no qual as interações não devem ser forçadas, mas aproximadas respeitando o espaço de colisão. O choque, assim, ganha uma nova dimensão dentro de sua torre, como protegido e reservado como arma forte do revolucionário. A fluidez das palavras ganha novo sentido, dentro do jogo argumentativo para compor uma visão. Nada é descartável, nada é fundamental. Quero tudo, tudo agora, tudo rápido, tudo ao mesmo tempo. Não posso perder esses fragmentos da minha vida com aquilo que me faz sofrer. Passo, então, a ver beleza nas subjetividades; beleza na construção, beleza na destruição.
Às vezes preciso escrever para que não me escape nenhum detalhe. A maior parte dos detalhes se vai, deixando o passado borrado, como um porão obscuro cheio de caixas de papelão. "Sei" o que as caixas guardam, mas me escapa o que EXATAMENTE elas contêm. Os odores misturados demandam um olfato aguçado, como de um cão de caça, mas o meu não foi desenvolvido ao longo dos anos. Pinceladas coloridas se misturam com a escuridão infestada, e o feixe de luz que vem da janela deixa o pó e os ácaros à mostra. Janela que hora é enorme, hora é minúscula; que se contrai e se dilata, como uma pupila que responde aos estímulos externos.
É o "meu" porão, onde ursinhos de pelúcia se chocam com livros desbotados e de onde tiro minha bagunça habitual. Tenho vontade de abrir minhas caixas, espiar por entre as frestas das abas, mas não consigo; me falta uma lanterna que nunca encontro. Achei que meu crachá me daria acesso ao seu conteúdo, mas apenas pude passar pela porta do porão, ultrapassei meu limite de acesso. Sento e espero. È tudo que posso fazer agora.

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